Internos da Fundac superam traumas da guerra diária com curso de ONG

Internos da Fundac superam traumas da guerra diária com curso de ONG que já esteve no Iraque e no 11 de Setembro em Nova York
Todos Creditos//Ana Braga
abraga@diariodepernambuco.com.br

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Um lugar onde se respira regras. Regras para acordar e dormir, receber o prato de comida, tomar banho, andar no corredor, conseguir um cigarro, jogar pelada, ver televisão, ouvir música, sobreviver, receber uma visita, esquecer o passado. Regras para as coisas mais banais. Um lugar onde não se respira, a não ser normas. E a superlotação que sufoca. Fora dele, outras leis, formais e sociais.

As aulas são ministradas pelo instrutor voluntário Roberto Rosua. Durante os exercícios, Jackie Chan (nome fictício) aprende a controlar a ansiedade. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
E aquele que é o primeiro ato humano no nascimento e imprescindível à vida, o respirar, sai do controle. Recuperar o próprio domínio sobre o inspirar e expirar, puxar e soltar o ar simplesmente, tem sido justamente o exercício de 50 internos da Fundac do Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife. Desde ontem até a próxima segunda-feira, eles participam do curso Smart Prision, realizado pela ONG internacional Arte de Viver, que já esteve em unidades prisionais do mundo, na Guerra do Iraque e no 11 de Setembro de Nova York.

Respirar pode ser, ao menos enquanto estiverem presos, a única liberdade desses 50 internos, crianças e adolescentes com até 21 anos de idade. A única coisa que podem controlar. Estão na Fundac para cumprir penas de seis meses a três anos de reclusão. Já foram julgados como assaltantes, traficantes ou homicidas. “Aqui é o oceano da Fundac. É aonde caem todos os jovens que já foram presos em outras unidades prisionais do estado”, observa o diretor da Fundac do Cabo, coronel Severino Leandro da Silva. É também um lugar tenso com rebeliões e fugas. Que tem 366 internos, quando a capacidade é para 132.

As aulas de respiração e meditação são ministradas por instrutores voluntários da Arte de Viver, fundada na pequena cidade da Índia chamada Bangalore, em 1981, pelo líder espiritual indiano Sri Sri Ravi Shankar, indicado quatro vezes ao Nobel da Paz. Donos ao menos da própria respiração, ensina o Sri Sri, podem controlar sentimentos negativos e aliviar traumas da guerra diária. “A respiração está com a gente toda hora. Quando a gente tem raiva, ela fica rápida, quente. Quando a gente tem medo, ela fica cortada, apertada no peito”, descreve o instutor argentino Roberto Rosua, enquanto conversa com os internos, numa sala improvisada por tapumes. “O primeiro ato da gente é inspirar e o último, antes da morte, expirar. E entre eles, tudo aquilo que a gente chama de vida”. O trabalho é inédito numa unidade prisional do estado.

Felipe, Davi, Bruno e Gabriel (nomes fictícios para preservar a identidade) sentiram tontura e dor de cabeça, durante o curso. Praticaram a bastriska, técnica de respiração rápida, de inspiração e expiração curtas. “Eles sentem tontura porque essa respiração oxigena demais o sangue e libera deles as toxinas, o estresse de viver entre o passado de agonia e o futuro que não existe”, explica Roberto. “Todo mundo só usa 35% da capacidade dos pulmões, o que limpa apenas 80% das impurezas do corpo”. De acordo com o instrutor, cerca de 200 internos do mundo inteiro já receberam o curso. A Arte de Viver é certificada nas Nações Unidas (ONU)como ONG oficial.

“A respiração certa tira da gente do pensamento ruim. Porque tem hora que o pensamento é bom, mas tem hora que é ruim”, conta Bruno, de 19 anos, que cumpre dois, dos três anos de pena por assalto à mão armada. “O pensamento ruim é pelo que acontece lá fora. Quem quer se drogar, se droga, quem quer roubar, rouba”, completa. O pensamento bom, diz Bruno, é a liberdade, é voltar a trabalhar com a mãe.

Cumprindo pena por assalto à mão armada e espancamento, Jackie Chan (codinome escolhido pelo interno para lembrar o famoso ator chinês), de 18 anos, chegou a dormir durante o primeiro dia do curso. “Eu nem sei por que isso aconteceu. Só sei que fiquei calmo”, lembra o interno. “Quando a gente cai aqui, conhece o inferno. Eu consegui fazer o que o professor disse e tive essa calma. Era bom que fosse assim lá fora”. Fora de lá, de volta à rua e (mal) ressocializados pelo estado, talvez Jackie e esses outros internos voltem a ser donos da própria respiração. Mas ela não será suficiente.

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