QUAIS OS MITOS PÓS-MODERNOS

QUAIS OS MITOS PÓS-MODERNOS

Por Ivan Marinho

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Lendo sobre o índio guarani Sepé Tiarajú, no artigo Narrativas Cruzadas, de Sandra Pesavento (UFGRS), pus-me a refletir sobre o Mito nos dia de hoje. Pra isto fui buscar ajuda em estudos e reflexões, como os de Everaldo P. G. Rocha, então mestre em antropologia social e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e numa adaptação resumida do livro O Poder do Mito, de Joseph Campbell, feita por Carlos Guimarães.

Sepé Tiarajú liderava os índios de Sete Povos das Missões, na região brasileira fronteiriça com o Uruguai. Ali havia se estabelecido os ensinamentos jesuíticos e, a desconfiança dos impérios ibéricos de que a suspeitada construção de um império teocrático pelas missões punha em risco seus domínios sobre as terras americanas, levou os dois reis a assinarem o Tratado de Madri, que determinava uma permuta de possessões naquela região, com o intuito de desmobilizar as ações religiosas.

Sagaz, o comandante indígena ludibria a comissão luso-castelhana valendo-se de uma bula papal já sem validade, o que é interpretado pelos índios como uma vitória: Sepé havia, com seus argumentos, feito retornar para a península a representação imperial que pretendia expulsar aqueles povos de sua terra natal. Dava-se ali o início de vários combates, marcados pelo senso estrategista de Sepé e, mais que tudo, por sua habilidosa artimanha. Foi quando, chamado para dar uma entrevista a Gomes Freire de Andrade, o cacique declarou: “ Esta terra tem dono. Nós a recebemos de Deus e de São Miguel”.

Em 1756, em Batovi, a lança certeira de um português põe Sepé no chão. Tomado de fé e espírito de luta, o índio encontra força para se erguer e tentar o combate, mas é abatido por um tiro de pistola. Sua morte ficou marcada por muitas lágrimas e a sensação de que, com a morte do líder a batalha ficara sem alma, resultando na dizimação dos 1400 índios poucos dias após.

Pesavento diz que, quando termina a narrativa histórica começa a lenda, “veiculada pela literatura e pelo mito. A literatura, por sua vez, não tem o compromisso que a história tem com a verdade, mas com a verossimilhança da versão: o que importa é a figuração do personagem e o sentido que lhe é atribuído”.

Então vejamos algumas considerações sobre o Mito.

O mito, quando de seu reconhecimento, tornou-se objeto de observação e estudo. A primeira corrente, a naturalista, relacionava a sua criação às tentativas de elucidação dos fenômenos naturais. Essa idéia serviu de objeto aos estudos de Max Muller no século XIX, seguida da contribuição da Sociedade para o Estudo Comparativo do Mito, no começo do século XX, que já incluía a idéia de difusão histórica em sua teoria que, mesmo acontecendo de forma concomitante com o Animismo, que postula a personificação e espiritualização de todos os elementos naturais sob uma perspectiva de infantilização do intelecto primitivo, vem a desencadear uma nova ordem de pensamento que, ao contrário destes dois (naturalismo, animismo), põe o mito como produto do ritual: a Escola do Mito e Ritual, que “tem seus primeiros indícios ainda no século XIX com os trabalhos sobre a religião semita de Robertson Smith, publicados em 1894” (Everaldo Rocha – 1981).

Com a inauguração do estudo de campo, realizado por Malinowski com os habitantes das ilhas Trobriand entre 1914 e 1918, dá-se início ao desenvolvimento de novos paradigmas, pois os antropólogos saem de dentro de seus gabinetes para dentro da estrutura cultural, num processo de vivência revelador, suscitando uma perspectiva analítica. Como adotou uma metodologia funcional, acabou por atribuir ao mito esta perspectiva funcional: uma espécie de guia ou objeto a serviço do “funcionamento social”.

Mas vão além os estudos mitológicos, encontrando na psicanálise seu lugar no interior do homem, revelando-se como um produto do inconsciente, lugar onde se origina, se processa e se realiza e, ainda mais, de acordo com Everaldo Rocha,, onde encontra sua forma de expressão. Jung completa os conceitos de Freud ao ligar o mito ao inconsciente coletivo, ou seja, a camada mais profunda da mente humana, mais interior que o inconsciente pessoal, mas que se encontra presente em todas as mentes individuais.

E o mito, com suas facetas, despertou o interesse de outros grandes expoentes do saber ocidental que, como Freud com seu foco no mito da mulher amada, focaram o mito da verdade (Foucault) e da origem (Lévi-Strauss).

Depois deste passeio histórico no estudo do mito – frisemos que se manteve entre as correntes a comunhão de que o mito é uma narrativa construída no ambiente social que se relaciona mais com valores espirituais do que com a verdade, do ponto de vista positivo e que, desde tempos remotos participa de um conjunto de conexões formulado socialmente, no sentido de responder as questões mais profundas da existência – gostaria de finalizar com uma inquietação: Fazendo jus ao nome desta coluna mensal no Interpoética (Que eu leve à dúvida…), primeiro, perguntando quais indagações e quais retornos encontram as massas condicionadas, da contemporaneidade, nos produtos massificados, pela indústria cultural e que se tornam referências, idolatrias, para milhões de pessoas. Longe das ânsias de eternidade e perplexos diante dos avanços tecnológicos, quais valores se justificam por trás das expressões erotizantes, efêmeras, hedônicas da cultura de massa? O que leva um homem do nordeste do Brasil, pernambucano, como o internacionalizado artista plástico Romero Brito, dizer que o Super-Homem é seu ídolo, mesmo tendo nascido nas mesmas plagas de Zumbi, Antônio Conselheiro, Frei Caneca, D. Hélder…? E se respondermos: A ignorância, o que povoa miticamente estes desertos sombrios?

(março de 2009)

ivanmarinhofilho@gmail.com

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