UM FILME PARA NINGUÉM MAIS ASSISTIR

UM FILME PARA NINGUÉM MAIS ASSISTIR

Por: Genilson Caethano

Em 1987 aconteceu em Pontezinha, bairro do Cabo, um dos maiores desastres rodoviários do Brasil, uma colisão envolvendo um ônibus da Empresa São Judas Tadeu e um caminhão, carregado com chapas de alumínio, que devido ao impacto, avançaram sobre os passageiros, resultando na morte de mais de 30 pessoas.

Na época com 17 anos, fui uma das primeiras pessoas a chegarem ao local do acidente, lá pelas 5 horas da manhã, enviado pelo meu pai, para verificar se uma prima, que costumava apanhar o ônibus para trabalhar neste horário, estava entre as vítimas.

Encontrei um cenário desolador, pessoas gritando pedindo socorro, outras desesperadas procurando por familiares e amigos, umas não paravam de se olhar e passar a mão pelo corpo, como se não acreditassem que estavam vivas, umas se ajoelhavam agradecendo a Deus por estarem vivas, ao mesmo tempo em que choravam pelas vítimas, outros estavam em estado de choque, parados no meio da correria, senso empurrados de lado para o outro, sem compreender o que estava acontecendo ao seu redor; corpos estavam dilacerados, pendurados nas janelas.

Após alguns minutos os veículos começaram a parar e prestar socorro as vítimas, chegaram as ambulâncias e os bombeiros, e começaram a retirar os feridos do interior do ônibus, cujas portas tiveram que ser a arrombadas. A última imagem que lembro foram as dos corpos enfileirados e sangue, muito sangue.

O desespero foi dando lugar a outro sentimento, o de revolta, e frases começaram avir de todos os lugares, “se este ônibus não tivesse superlotado não teria acontecido isto”, “como pode! vinha gente pendurada até nas portas”, “se tivesse mais ônibus na linha, isto não tava assim”.

Ao final, transtornado por tudo que tinha visto, voltei para casa para dizer a meu pai que a prima não estava entre as vítimas, mas fui informado que ela havia perdido aquele ônibus. No ano seguinte, feliz por conseguir o meu primeiro emprego e, achando que os problemas com as superlotações nos ônibus haviam sido resolvidos, expectativa gerada a partir das inúmeras manifestações públicas em favor de uma melhoria no transporte coletivo e da segurança das rodovias, me deparei tendo que viajar pendurado na porta traseira de ônibus até Prazeres, onde ficava a Empresa Alpargatas, era como se a cada viagem eu assistisse ao mesmo filme de terror.

Já se passaram 22 anos do trágico acontecimento, a rodovia BR 101 foi duplicada até o Cabo, mas o transporte coletivo, pouco melhorou durante esse tempo, os ônibus pela manhã continuam superlotados, se repete às 17 horas, e o que parece inacreditável, os usuários que vem do Recife para o Cabo no intervalo entre as 21 e 23h30 horas, disputam um lugar no piso do ônibus para colocar os pés, se amontoam operários, idosos, e principalmente estudantes, que vem das faculdades, colégios, cursos, estimulados pelos novos empreendimentos do Porto de Suape.

Hoje, 25 de setembro de 2009, por volta das 22 horas, apanhei este ônibus, todas as lembranças daquele filme de terror voltaram, como se não bastassem os medos pelos quais passamos, nas inúmeras vezes que a Fábrica de Pólvora Elefante explodiu e aquele cogumelo de fumaça e poeira cinza nos cobriam, e o povo sentenciava, “agora vamos morrer”. Quantas vezes sobrevivi, mas até quando?.

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