Joaquim Nabuco O abolicionista que quis mudar o Brasil

Joaquim Nabuco O abolicionista que quis mudar o Brasil

Ele defendia que para transformar o país era preciso primeiro abolir a escravidão e, em seguida, fazer a reforma agrária e universalizar a educação
POR:Vandeck Santiago
vandecksantiago.pe@dabr.com.br

No dia em que se celebra o centenário da morte de Joaquim Nabuco, faz sentido destacar que o período da vida dele que mais guarda semelhança com os dias atuais é aquele da sua ação como abolicionista, que vai de 1879 a 1888. “A mãe de todas as reformas é a reforma social”, dizia ele, numa frase que no Brasil nunca perdeu a atualidade. No parlamento, onde chegou como deputado eleito por Pernambuco, mostrou-se “desencantado” com a briga por reformas cosméticas, que não alteravam em nada a vida das pessoas, como a reforma política. Por isso definiu-se não como político, mas como “reformador social”.


Joaquim Nabuco na época da campanha abolicionista Foto: Acervo Fundação Joaquim Nabuco

Nascido em família rica e de prestígio político, foi o liberal mais radical do Brasil. Tivesse seguido outro caminho, e certamente teria sido barão, conde, presidente de província ou ministro – como foram alguns dos seus colegas de geração bem menos talentosos. A escalada de Nabuco começou de forma moderada – no início falava em “emancipação dos escravos”, e não em “abolição”, por exemplo, e era favorável a que os proprietários fossem indenizados pela libertação dos escravos -, mas ao longo de sua trajetória abolicionista deu uma guinada que o levou a ser acusado de “comunista”, “agitador” e “petroleiro” (o equivalente a “incendiário” nos dias de hoje).
“É notável a história desse aristocrata que conseguiu sair por algum tempo do círculo de interesses da sua classe, e a quem o movimento abolicionista deu uma clarividência assombrosa”, afirma o professor Antônio Cândido, em texto (Radicalismos, 1990) onde analisa o radicalismo de três pensadores brasileiros: Nabuco, Manoel Bomfim e Sérgio Buarque de Holanda. “Durante esse lapso ele enxergou além do seu tempo e teve uma noção correta da sociedade brasileira real”. Nabuco viu não só a deformação moral que representava a escravidão, mas também os efeitos que o sistema representava para o atraso econômico e social do país: concentrava a riqueza, atrofiava a produção e desvalorizava o trabalho (ainda hoje é comum ver-se a ideia de que “trabalhar muito” é “coisa de escravo”).

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Em 1880 Nabuco apresentou um projeto que previa a abolição para dali a 10 anos, em 1890. Apesar do seu caráter moderado (imaginem, uma medida que só entraria em vigor em 10 anos#), o projeto foi rechaçado. Foi o primeiro embate parlamentar de peso de Nabuco, suficiente para não lhe deixar dúvidas – se é que ele ainda as tinha – sobre o acidentado caminho rumo às reformas sociais.

Em 1882, vindo de uma derrota política para deputado e do fim de um atormentado caso amoroso com uma rica herdeira do Rio, ele trancou-se na Biblioteca Britânica de Londres e produziu lá uma obra-prima, O abolicionismo. É o marco na transição do “moderado” para o “radical”. Ele radiografa o sistema escravista com uma virulência até então inédita no Brasil, sem poupar ninguém – nem mesmo a (na época) intocável Igreja Católica. A essa altura ele já defende a abolição imediata (e não para dali a 10 anos) e sem nenhum tipo de indenização para os proprietários – se alguém merecia serindenizado por causa da escravidão, dizia ele, eram os escravos. A visão de O abolicionismo como uma obra de propaganda permaneceu até a década de 1960, quando foi revista por estudiosos. Segundo o historiador Francisco Iglésias, trata-se na verdade da “reflexão mais coerente, profunda e completa já feita no Brasil sobre o assunto”.

No ano de 1884 candidatou-se a deputado, empreendendo a campanha que marcou a sua carreira. Inaugurou na vida política pernambucana os comícios a céu aberto. “A liberdade sem o trabalho não pode salvar este país da bancarrota social da escravidão, nem tampouco merece o nome de liberdade: é a escravidão da miséria”, diz ele, em um dos atos. “O fato de serem os nossos adversários os homens ricos do país faz que eles pareçam maioria quando são apenas uma fração cuja força provém exatamente do monopólio do trabalho que adquiriram por meio da escravidão”, diz em outro.

A Abolição só viria quatro anos depois, em 13 de maio de 1888, assinada pela Princesa Isabel, e sob o governo de umGabinete conservador, liderado por João Alfredo (outro pernambucano). Foi a medida mais radical já tomada por um governo brasileiro contra os interesses da chamada classe dominante. Nabuco era deputado, e estava no auge de sua carreira. Era ovacionado por onde passava. No ano seguinte, porém, deu-se a Proclamação da República, que tinha entre seus seguidores muitos dos que tiveram interesses contrariados pela Lei Áurea. Nabuco, monarquista fiel, abandonou a política.

Voltaria à vida pública em 1900, como diplomata. Em 1905 tornou-se o primeiro embaixador do Brasil nos Estados Unidos. As chamas do radical já estavam apagadas, dando lugar ao escritor. Escrevera Minha Formação (1896) e Um Estadista do Império (1898) , obras que o entronizaram como autor de clássicos nacionais. Morreu em 17 de janeiro de 1910, nos EUA, de congestão cerebral. Está sepultado no cemitério Santo Amaro, no Recife.

Cronologia

19 de agosto de 1849

Nasce no Recife e recebe um nome quilométrico: Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo. O sobrado em que nasceu está de pé ainda hoje. É o de nº 147 na Rua da Imperatriz (na época a rua se chamava Aterro da Boa Vista, e o número da casa era 39)

1849

Neste mesmo ano vai morar no Engenho Massangana, no Cabo, de propriedade dos seus padrinhos. O pai dele, Nabuco de Araújo, fora eleito deputado por Pernambuco e precisou transferir-se para o Rio, então capital do Brasil. A mulher e os outros quatro filhos do casal seguiram junto. Joaquim Nabuco ficou sozinho, com os padrinhos

1857

Morre a mulher que foi a “mãe de sua infância”: a madrinha Ana Rosa Falcão de Carvalho. Depois de morar por oito anos longe dos pais, no Engenho Massangana, é levado para o Rio

1870

Conclui no Recife o curso de direito, que iniciara em São Paulo, em 1866

1876

Início da carreira diplomática. É nomeado adido de Legação em Washington (o Brasil não tinha embaixada nos EUA). No ano seguinte é transferido paraa Legação de Londres

1878

Volta ao Brasil. O pai morre. Elege-se deputado por Pernambuco

1880

Apresenta um projeto em que a abolição seria implantada dalia 10 anos, em 1890

1883

Lança seu livro mais engajado, O abolicionismo. A essa altura sua posição pró-abolição já avançara a ponto de defender a “abolição já” e o não pagamento de indenização aos proprietários de escravos

1884

Retorna ao Brasil e torna a se eleger deputado por Pernambuco

1889

Proclamação da República. Nabuco, monarquista, abandona a política. Era então deputado. No mesmo ano havia casado com Evelina Torres Ribeiro, filha de um barão fazendeiro de café, em Maricá (Rio)

1897

Lançamento do primeiro volume de Um estadista do Império (o segundo e o terceiro seriam publicados nos anos seguintes)

1899

Após 10 anos afastado dequalquer ligação com a República, aceita a tarefa de ser o representante do Brasil na defesa da questão de território da Guiana, reclamado pela Inglaterra e pelo Brasil. O caso só foi resolvido em 1904, com a maior derrota diplomática de Nabuco: 60% do território disputado ficaram com a Inglaterra

1905

Criada a Embaixada do Brasil nos EUA, em Washington. Nabucoé nomeado primeiro embaixador

17 de janeiro de 1910

Morre nos EUA. A Marinha brasileira providencia o transporte do caixão para o Recife. Está enterrado no cemitério de Santo Amaro

Sensível aos dramas nacionais

O mais importante a compreender em Joaquim Nabuco é que ele não foi um só, foi vários. O “Nabuco abolicionista” é um deles, porém não o único. Ele teve uma fase de quase republicano (na juventude), uma fase anti-republicana (após a Proclamação da República), uma fase de assimilação da República e uma fase do Pan-americanismo, quando se aproximou dos interesses dos EUA. “Mas os diferentes Nabucos não conviveram caoticamente, ao mesmo tempo e misturando-se um com o outro”, analisa o cientista político Marco Aurélio Nogueira (SP), autor de As desventuras do liberalismo – Joaquim Nabuco, a Monarquia e a República (Paz e Terra, 1984). “Em cada uma dessas fases da vida dele temos uma agenda temática específica”.


É por essa diversidade que Nabuco encontra admiradores entre conservadores e esquerdistas – para cada um deles há um Nabuco que lhes interessa. Não há como negar, porém, que o seu período abolicionista foi o mais apaixonante e generoso. É quando ele se descola dos interesses de sua classe e abraça a causado setor mais excluído da população do seu tempo: os escravos. Faz isso em duas frentes: na ação propriamente dita e no pensamento. É ele quem diz, por exemplo, que “os negros nos deram um povo” – frase que para a época soava como uma provocação insuportável.

Em O abolicionismo ele pioneiramente vê as raízes do Brasil como uma nação mestiça e aponta a escravidão como uma característica do país, a permanecer por muito tempo.

O fim da Monarquia e a chegada da República põe em cena um novo Nabuco: recluso, afastado da vida pública, carola (ele que na juventude tivera lampejos anticlericais), voltado para a redação dos seus livros. Casara-se (em 1889) com Evelina Torres Ribeiro, depois de 13 anos de juras de amor e repetidos rompimentos com Eufrásia Teixeira Leite, linda herdeira de produtores de café em Vassouras (RJ).

Estava no auge da carreira, com 40 anos, e teria sido fácil manter-se no topo se — como vários dos seus colegas – houvesse aderido à República. Fiel à monarquia, porém, ele preferiu sair de cena. Só retornaria à vida pública uma década depois, aceitando convite do presidente Campos Sales. Seu canto do cisne foi a defesa do Pan-americanismo, empreendida como embaixador do Brasil nos EUA, quando se tornou um dos diplomatas mais próximos do presidente americano, Theodore Roosevelt, e do secretário de Estado, Elihu Root.

O Pan-Americanismo era uma tese originária do presidente americano Thomas Monroe, em 1823, simplificada na frase “A América para os americanos”. Entre outras coisas, significava o impedimento de qualquer intervenção dos países europeus no continente americano. Nabuco estava escaldado pela causa perdida da Guiana, quando prevalecera os interesses da Inglaterra sobre o Brasil. A ação em prol do Pan-americanismo é um dos temas da trajetória dele ainda carente de novos estudos.

Nabuco teve uma vida agitada, mas relativamente curta, mesmo para os padrões de sua época. Morreu aos 60 anos. Após o fim de sua fase abolicionista, nunca mais escreveu frases como “a Pátria, como a mãe, quando não existe para os filhos mais infelizes, não existe para os mais dignos”. O tom de indignação cedeu lugar a ponderadas reflexões, como a que se vê na sua última obra, Um estadista do Império: “A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las, e com eles é impossível governar. Cada revolução subentende uma luta posterior e aliança de um dos aliados, quase sempre os exaltados, com os vencidos”. Mas um fato ligador de todas as fases de Nabuco, afirma Marco Aurélio, é que ele “nunca deixou de pensar o país e sempre foi muito sensível aos dramas nacionais”.

Pioneirismo do Diario


Joaquim Nabuco é um nome famoso na história, mas pouco conhecido. Sobre ele há muitos trabalhos acadêmicos, abordando temas específicos de sua obra, porém são raros os livros que traçam sua biografia. Duas biografias dele estão esgotadas: uma de 1952, de autoria de Luiz Viana Filho, e a segunda de 1979, de sua filha, Carolina Nabuco, ambas com o mesmo título, A vida de Joaquim Nabuco.


Uma terceira foi lançada em 2007, na coleção Perfis brasileiros da editora Companhia das Letras (SP). Chama-se Joaquim Nabuco e é de autoria de Ângela Alonso. Em que pese a boa pesquisa, e o fato de ter disposto de material recente, a autora faz uma abordagem equivocada do seu biografado. Vê Nabuco sempre agindo motivado por interesses outros que não o da causa em si, como marionete das circunstâncias em que viveu.

No campo do jornalismo o Diario de Pernambuco lançou em 13 de maio de 2005 um caderno especial de 16 páginas contando a vida dele, a partir do seu aspecto mais radical. Intitulado Joaquim Nabuco – Um radical do Império, o caderno traz matérias abordando assuntos como o relacionamento amoroso dele com Eufrásia Teixeira Leite (O abolicionista radical, a herdeira rica e uma triste história de amor), sua atuação política (Político, não; reformador social), sua escalada rumo ao radicalismo abolicionista (De como Quincas, o Belo, tornou-se Nabuco, o Petroleiro), a defesa que fez do escravo que matara o senhor (O escravo que virou tigre), entre outras.

Acompanham as matérias entrevistas com estudiosos, como Humberto França (Mais Nabuco, menos Nassau), Marco Aurélio Nogueira (Nosso liberalismo jamais pensou a questão social) e Evaldo Cabral de Melo (Obra de Nabuco mantém gritante atualidade). O caderno foi finalista naquele ano do Prêmio Embratel de Reportagem Cultural (nacional) e do Prêmio Cristina Tavares (estadual).

Principais obras

A escravidão: Escrito em 1869, só foi publicado em 1988, pela Fundação Joaquim Nabuco. Mostra Nabuco no alvorecer de sua escalada no engajamento da luta contra a escravidão

O abolicionismo (1888): Sua obra mais radical, em que passa a escravidão a limpo

Campanha abolicionista no Recife: Reprodução dos discursos dele na sua campanha mais notável, a de 1884

Um estadista do Império (1897): Um clássico da historiografia brasileira. Biografia do pai dele, Nabuco de Araújo, e uma perfeita reconstituição da vida política do Brasil no Segundo Império

Minha formação (1900): Autobiografia intelectual. O destaque é o capítulo “Massangana”, engenho em que viveu até os oito anos

Diários: Obra lançada em 2005, em dois volumes: são os diários que ele escreveu até a morte, em 1910

Ano Nacional Joaquim Nabuco

Por determinação de lei federal, 2010 é o Ano Nacional de Joaquim Nabuco. Uma série de atividades está programada para a celebração da data, sob organização de diversas instituições, como a Academia Brasileira de Letras, universidades, prefeituras da Região Metropolitana do Recife, Fundação Joaquim Nabuco e universidades locais. Hoje haverá missa no Cabo de Santo Agostinho, onde ele passou a infãncia, e na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, sede da Academia Brasileira de Letras, da qual foi um dos fundadores.


A Assembleia Legislativa fará uma sessão solene em 3 de março e no dia 11 do mesmo mês acontecerá na Fundação Joaquim Nabuco a abertura oficial do Ano. Outros eventos estão programados para 13 de maio (aniversário da Abolição), 19 de agosto (dia do nascimento dele; haverá um seminário na Fundação, com a participação de estudiosos de todo o país) e 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, quando ocorrerá a reabertura do Engenho Massangana, no Cabo.

Comments
One Response to “Joaquim Nabuco O abolicionista que quis mudar o Brasil”
  1. soormsainna disse:

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