Morar no Cabo de Santo Agostinho

Morar no Cabo de Santo Agostinho

Por Tereza Soares

Morar no Cabo de Santo Agostinho tem um lado doce e outro amargo. Você não sabe por onde comece mordendo este fruto. Vantagens que se confundem com desvantagens, o que podemos dizer é que um lugar tão bonito assim, em belezas naturais, tornou-se aprazível para quem chega e insuportável para quem passa a conviver. E haja gente a chegar desde “os novos rumos” que a cidade tomou. Mas acontecem contradições enormes…e…porque não dizer, paradoxos mesmo. Cidade ora cosmopolita ora provinciana.

Os empregos atraem casais motivados por propagandas de TV, muitas vezes enganosas… Eles querem se instalar na cidade, mas precisam conhecer bem onde irão comprar terrenos e construir suas casas nos loteamentos na cidade e nas praias, para não comprar uma dor de cabeça.  Falta de infra-estrutura é a característica dos novos loteamentos onde até existem casas pré-planejadas já prontas, mas o que não está pronta ainda é a cidadania.

Profissionais e técnicos de várias áreas entopem pousadas e hotéis do litoral, que não recebem mais turistas porque a opção dos Governos foi pelo desenvolvimento portuário, terminando por sufocar a atividade turística…Resultado: Praias lindas, apinhadas de operários! Porto de Galinhas é que recebe, enfim, os “euros” e se apossa  dos “louros” de um Turismo mais arrojado e com retorno de mídia.

Diariamente, pessoas “sorteadas” por estarem empregadas se apertam nos ônibus para chegar às firmas e aos estabelecimentos comerciais e as  “que estão de fora” disputam a vez na fila da Agência do Trabalho.

Diversão é sinônimo de barulho. Tanta gente assim, sem educação sonora, vai gerar uma população de surdos num futuro próximo!… (Até que enfim está sendo lançada pelo Governo do Estado uma campanha para coibir a poluição sonora na Região Metropolitana!!!). Mas há quem venha morar no Cabo porque aqui “é mais tranqüilo” que na capital.

Tranquilo??? Só se for a falsa tranqüilidade que sentem os passageiros dos ligeirinhos ao experimentarem o roteiro diário na PE-60, espremidos entre caminhões de gás e de substâncias químicas e materiais inflamáveis.  Se não “entregar a Deus” sua vida todo dia adoece de síndrome do pânico. Aliás, a PE-60 recebeu o nome de um religioso que realizava batismos, o saudoso Armínio Guilherme. Ironicamente o nome de Armínio Guilherme agora está mais relacionado a extremunção.

Se o cabense quer algo novo para fazer nos fins de semana, apesar da cidade ter um incrível acervo para o Turismo Rural e o Ecoturismo nas áreas açucareira e praiana, precisa viajar para Gravatá, Caruaru, Tamandaré ou buscar a compulsiva opção dos shoppings de Recife e Jaboatão. Porque ficar na cidade no domingo, só se for para assistir missa ou culto nas igrejas, ou sentar em frente a casa pra fofocar, mesmo com o vai e vem irritante das motos. Sim…tem ainda a empoeirada e perigosa solução que é ir ao shopping Costa Dourada. Cadê o cinema que não chega para salvar a situação???

Culturalmente…o Cabo tem o cínico exemplo de possuir um celeiro valioso de artistas plásticos, atores, músicos…Diretores premiados como Luiz Navarro, grandes revelações no teatro como Luzarcus, pintores de mão cheia como Wagner Alexandre, exímio violinista como Severo, mas o único palco para estas artes…não é utilizado como precisaria ser. E além do mais…a célebre pergunta “Hoje tem espetáculo???”, se for feita…ficará sem resposta, por falta de divulgação da agenda cultural e, é claro, de incentivo para o Teatro.

Não…não. Quem vem morar no Cabo precisa saber que aqui tem problemas de lixo, poluição sonora, acidentes de trânsito, falta de calçadas, de paradas de ônibus, de estacionamento, de equipamentos de lazer e cultura…etc, etc… Menos de 0,5% da população separa o lixo que descarta e não há informação disponível para isso. Em muitas ruas o esgoto corre a céu aberto. Precisa saber que o município tem um baixo índice de desenvolvimento juvenil e que os jovens aguardam há anos por uma simples pista de skate, sendo perseguidos e marginalizados porque interditam trechos de ruas para praticar seu esporte preferido.

Precisa saber também que a Academia da Cidade oferece meia opção de qualidade de vida…a parte que não ajuda é o fato de ser instalada ao lado de uma área que tem o ar monitorado por causa da poluição das indústrias instaladas nas proximidades. Prefiro correr à beira-mar correndo o risco de pisar em piche, mas respirando brisa marítima!!!

E os governos que se passam dão um show de falta de criatividade…idéias viciadas sobre progresso, sem sustentabilidade ecológica, consciências mecanicistas e reducionistas…

Porque não levar os estudantes naqueles ônibus de passeio que imitam trenzinhos para uma incursão pela zona açucareira…com seus engenhos, moendas, casarios, arruados…contando a história do lugar??? Uma cidade que tem entre seus ilustres uma poetisa como Celina de Holanda para valorizar…Poucos são os estudantes que sabem disso!

Não fosse ter sido criado o Encontro Celina de Holanda de Poetas Recitadores, nunca teria havido reconhecimento algum antes de sua morte. Mas, os shows de brega no Asa Branca esbanjam um forró tardio com cheiro de pobreza no ar. Que bom ter em casa os discos de Ednardo, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e do Gonzagão!!!

Tereza Soares é Cabense, moradora de Enseada dos Corais, Jornalista, poetisa e membro da Academia Cabense de Letras.

Comments
2 Responses to “Morar no Cabo de Santo Agostinho”
  1. Heraldo Ferraz Cavalcanti disse:

    Como diz o bom nordestino, “Eita mulher arretada” Em poucas palavras, disse tudo o que é morar na cidade provinciana do Cabo de Santo Agostinho. Imagine se conhecesse de todas contradições e a falta de respeito dos nossos políticos atuais. Mais, com certeza já conhece o Portal Cabo. Que através dos nossos amigos internautas vai aprimorando vossos conhecimentos e logo mais, será a Deuza do Basquete e o Pelé do Futebol. Parabém Tereza Soares, Jornalista, poetisa e membro da cademia de letras (merecedora deste titulo) desta cidade, que não é maravilhosa, mais como você mesmo disse! “ora Cosmopolita, ora provinciana.

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