O “último ato” de Chico Alves

O “último ato” de Chico Alves

Velório do ator cabense Chico Alves foi a certeza de que o espetáculo não terá suas cortinas fechadas, pelo contrário, o sentimento de que a semente do talento começa a germinar.

POR:Wilson Firmo

Tarde de sábado de carnaval. O Teatro Barreto Júnior, palco de grandes espetáculos e sede da revelação de grandes talentos, serviu de cenário para o que foi chamado o “último ato” exatamente daquele que os holofotes, por vários momentos, focava e iluminava com brilhantismo, disciplina: o talentoso ator cabense Francisco Alves, o Chico. Foi tarde de despedida ou de um “até logo” ao grande artista.

Na plateia, amigos, diretores, atores, familiares, que “assistiram” ao último espetáculo de Chico, que morreu na madrugada do sábado de carnaval, 13, aos 44 anos. Estava ali reunida uma grande família. Como lembrou o ator e diretor cabense, Luiz Navarro, Chico tinha a família como um “porto seguro”. Navarro puxou da plateia uma grande salva de palmas como uma “justa homenagem” ao artista e lembrou que a cortina não se fechou.

“Eu morei e convivi por muito tempo com Chico, em São Paulo, participei de várias despedidas de Chico indo para São Paulo e em todos os momentos que Chico precisou ele sempre teve a família dele. Os amigos sofrem, todos nós aqui, mas a gente sabe que o porto seguro de Chico sempre foi a família dele e para um ator neste momento a cortina não se fecha porque, de fato, o espetáculo ainda não acabou, mas mesmo assim a maior homenagem que pode receber agora é esta [uma grande salva de palmas]“

Dessa vez não se teve “Guiomar sem Rir e sem Chorar”. O choro prevaleceu como despedida, como algo que doía pela certeza de não mais poder ver a expressão, a interpretação, a incorporação tão fiel e tão perfeita das personagens que Chico fazia tão bem. Foram inúmeros papéis.

O diretor de teatro, José Manoel, que atualmente vinha dirigindo o espetáculo “Viva a Nau Catarineta”, da qual Chico engradecia com sua experiência, conseguiu falar durante breve momento no velório e lembrou que Francisco é um importante pedaço do povo brasileiro.

“É impossível contar a história do teatro no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco e até no Brasil sem falar em Chico. Ele teve um papel de representação como artista, como cidadão, sempre ligado aos movimentos de resistência. Através da trajetória de vida dele podemos continuar contando a história do povo do Brasil. Chico é um pedaço importante do povo do Brasil que não para agora porque o povo do Brasil continuará para a eternidade. Ele permanecerá no coração da gente”.

Para o escritor, imortal da Academia Cabense de Letras e recentemente homenageado na Mocaspe, Antonino Júnior, há duas maneiras de lembrar de uma artista que parte: ou se desesperando ou eternizando sua obra.

“Vamos continuar trabalhando para que sua obra, a memória de seu grande talento nos palcos continue espelhando e sendo referência para as novas gerações. Vamos sentir saudades, e como vamos, mas não vamos nos desesperar nesta última temporada de Chico conosco”, disse Antonino.

Antonino iniciou o velório fazendo analogia a um espetáculo com dois atos, um de cunho mais religioso, onde alguns evangélicos e familiares se alternaram em reflexões do Evangelho e breve hinos de louvor. O segundo ato ficou por conta de breves depoimentos, expressados por Luiz Navarro, José Manoel e Edinilson Oliveira — que leu mensagem enviada por seu irmão e ator cabense Edson Oliveira, que está em São Paulo.

Na mensagem Edson lembra um dos momentos de uma das partidas de Chico para São Paulo, que foi exatamente um trecho da música “Canção da América“, de Milton Nascimento. “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, no lado esquerdo do coração”. Edinilson teve de respirar fundo. Procurou se conter e continou a leitura do texto. Não foi fácil. “Dessa vez, Chico, você partiu, só que agora para um lugar bem melhor que Sampa, mas agora a saudade será maior ainda”, dizia trecho da carta de Edson Oliveira.

Numa outra parte da mensagem, Edson lembra que tudo havia começado no Grudage — o Grupo da Gente. De fato, Chico foi um dos fundadores do GRUDAGE, em 23 de outubro de 1982, junto com o outro talentoso ator Ednaldo Oliveira. Eles construíram a montagem de vários espetáculos. Em conversa com vários artistas, mesmo que soluçando e vendo as lágrimas caíram, lembram que nestes anos o Grudage levou o teatro às periferias da cidade através de oficinas, espetáculos de teatro e leituras dramatizadas.

O pequeno Renan Firmo, de 6 anos, filho deste jornalista, na sua inocência e desde já frequentador de teatro, questionava: “mas, pai, porque todo mundo tá saindo? Cadê aquelas pessoas engraçadas que me faz rir, pai?”. Este velório foi mesmo um espetáculo, que nos fez chorar, mas ao mesmo, nos encheu de esperança e vontade de continuar lembrando de “dona guiomar”, sorrindo, nos alegrando.

Depoimentos:
Evânia Copino – atriz
“Não perdemos apenas um grande artista, mas um grande companheiro de vida. Ele era amigo para todas as horas. Um ator, um profissional exemplar. Um evento desse nos faz parar para rever nossa conduta, de como queremos ser lembrados no futuro. E é muito orgulho ter sido amiga de Chico. Vou sempre lembrar dele como uma pessoa alegre, dinâmica, sempre disposto a ajudar, o grande artista, rápido no raciocínio, uma pessoa extremamente companheira, disciplinada e profissional”.

Alce – ator

“Apesar de não ter tido a chance de contracenar com Chico, fui contemplado em ter sido um amigo íntimo de Chico e por conta disso ter aprendido tanto não só no ramo do teatro mas como pessoa. Nós perdemos não só um grande ator, mas uma grande pessoa”.

Leidson Ferraz – ator e jornalista
“Vou lembrar de Chico como a pessoa que teve e viveu amor incondicional ao teatro, uma paixão que reverberava em todo mundo que convivia com ele. Era uma militante do teatro. Vai deixar muito saudade. Espero e desejo que o Grudage prossiga sua trajetória mesmo com a ausência importante do Chico. Ele gostaria muito que o grupo continuasse. Fico feliz em saber que o grupo conquistou o prêmio Myriam Muniz de Teatro [da Funarte/Ministério da Cultura, com o espetáculo ´Viva a Nau Catarineta´], que vai circular por 10 municípios de Pernambuco. Isso vai deixar Chico muito feliz”

Adalberto Santos – “Toto” Santos – ator

“Chico sempre passou muito de sua experiência de vida pra gente. Convivi vários momentos muito bons com Chico, no teatro, nas viagens. Eu sempre o terei como um amigo, um artista de bola cheia, um grande professor”.

O cortejo seguiu até o cemitério São José. Antes da colocação do caixa na gaveta reservada à família, integrantes de um templo espírita que Chico participava fizeram breve reflexão e rezaram um Pai Nosso.

O caixão foi depositado na gaveta ao som de muitas palmas e ao final cantaram “Ave Maria” e “Canção da América”.

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