Dois tiros na cidadania

Dois tiros na cidadania

Por DOUGLAS MENEZES*

Alcides do Nascimento. Nome comum até demais. Entretanto foi mais um brasileiro a contrariar o que a vida reserva para jovens iguais a ele: fome, miséria, violência e desencanto. Seu sobrenome é uma oposição à sua morte precoce e de modo violento, estúpido. Alcides era mais uma exceção a ser notícia em um estado onde se mata mais jovens no país, segundo a colunista Cláudia Parente do caderno Cidades do JC. Cometeu, porém, um erro fatal: continuou a viver na comunidade em que nascera, desprovida de tudo e sem ainda o amparo do poder público. Aí, segundo alguns teóricos, estava no local e hora errados e a fatalidade aconteceu.

É preciso, então, sugerir alguma coisa: já que é difícil ao estado, enquanto poder constituído, resolver os problemas sociais de comunidades feito à de Alcides, por que não retirar esses jovens dos locais onde vivem assim que conseguirem se destacar para não correrem risco de morte. Uma república, uma bolsa para que vivessem em outras residências menos perigosas. Talvez com isso, evitássemos tragédias como a de Alcides, que comovem, são notícias e depois caem no esquecimento.

O jovem favelado deu um exemplo de que é possível nascer uma flor na lama da subvida. Trouxe a esperança de que outros do mesmo nível poderiam ocupar um espaço reservado apenas às elites do país: estudar em uma Universidade Federal. Mas lembremos: é só mais uma exceção para confirmar a regra.

Além disso, estarrece, chama a atenção o fato de que os algozes do estudante foram pessoas jovens, um com menos de dezoito anos, inclusive. Fazem parte da geração perdida. Que às vezes mata sem qualquer motivo a pessoa que não queria matar.

Então é necessário refletir sobre nossa democracia. Vivemos aqui, a visão de que tudo o que foi do passado é ultrapassado e deve ser substituído. Valores que talvez continuassem a dar certo são relegados a segundo plano ou ao esquecimento. E, na concepção dos esquerdistas de plantão, são valores conservadores e, por isso mesmo, de direita. Na verdade, porém, não se substituíram regras de comportamento que os jovens recebiam antigamente. E passou-se a uma visão de que tudo que impõe limite é autoritário.

E não é. Está aí o caso das torcidas organizadas, compostas, na sua maioria, por jovens que, a cada jogo, espalham o terror junto à população brasileira, entoando hinos de guerra e de morte aos adversários, além de assaltarem, causarem pavor às pessoas de um modo geral. Quem atira um vaso sanitário ou um extintor de incêndio a dezenas de metros de altura, como ocorreu no estádio do arruda recentemente, não tem noção nenhuma de cidadania ou não possui objetivo algum na vida.

A juventude brasileira hoje, não cultiva valores nacionalistas de amor ao país, muito menos em relação ao estado ou município. As lições de civismo de outrora começam a virar ou já viraram peças de museu. É caretice que constrange o jovem e faz os símbolos nacionais se transformarem em elementos sem força. A respeitabilidade só é plenamente realizada com o uso da repressão. O que há é uma horda de adolescentes e jovens perdidos, caminhando sem rumo, ao sabor simplesmente dos instintos e de uma concepção meramente imediatista. Saudade dá do boa noite aos mais velhos na calçada. Do levantar de todos os alunos à chegada de um estranho à sala de aula. Do Hino Nacional e de Pernambuco antes do início de cada dia letivo.

Das lições de companheirismo, de coleguismo e de amor ao próximo que os pais passavam aos filhos também sentimos saudades. Eram ensinamentos simples, mas que, com certeza, poderiam evitar algumas tragédias que hoje assistimos impotentes. Talvez, se essas coisas voltassem a acontecer, não precisássemos chorar outros Alcides, que todo dia enlutam a já tão combalida e ofendida cidadania brasileira.

*DOUGLAS MENEZES é professor, escritor e membro da Academia Cabense de Letras – Cabo de Santo Agostinho/PE

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Comments
6 Responses to “Dois tiros na cidadania”
  1. José luiz sobrinho disse:

    Eu tiro o chapéu para este grande escritor DOUGLAS MENEZES. Que neste artigo trata do caso do estudante de medicina ALCIDES e chega á dura constatação da falência do estado em garantir as condições básicas de segurança, e num tom provocativo a quem de direito faz a seguinte proposta: “já que é difícil ao estado, enquanto poder constituído, resolver os problemas sociais das comunidades, feito à de Alcides, por que não retirar esses jovens dos locais onde vivem assim que conseguirem se destacar para não correrem risco de morte. Uma república, uma bolsa para que vivessem em outras residências menos perigosas”. O que não pode é fatos com este continuaram a acontecer e vira coisa normal. Vamos refletir esta proposta colocada pelo nosso estimado escritor, professo e membro da academia cabense de letras DOUGLAS MENEZES.

  2. Alberto Figueiredo disse:

    Professor me dê entendimento!
    Não temos, talvez, o mais ou um dentre os mais modernos códigos de defesa da criança e do adolescente do mundo?
    Ou será porque os pais mudaram seus conceitos em educar e até mesmo de amar os filhos?
    Não foi a partir de milhares de congressos, seminários e outras tantas reuniões entre psicólogos, educadores, membros da justiça, e do legislativo que teve início a concepção do ECA (literalmente), mecanismo criado para nortear inclusive as relações pais e filhos?
    Sim!
    Porque inibe as ações de autoridade dos pais em detrimento às liberdades dos filhos, poucos são os pais que ainda conseguem manter algum controle sobre os filhos mesmo de tenra idade.
    Aqui mesmo onde moro já aconteceu um caso onde o pai vendo a filha de 13 anos juntar-se com meninos da mesma idade envolvidos com drogas tentou conversar, não adiantou, procurou o Conselho Tutelar, chamaram a menina para uma conversa, tudo dentro dos conceitos definidos.
    Assim que voltou para casa, encontrando o pai no terraço da casa, passou, beijou o pai e disse ao ouvido: Se me chamarem de novo naquela … eu não, mais tenho que mande você comer capim pela raiz.
    Se o pai a houvesse surrado ela prestaria queixa dele e seria preso.
    São as leis brasileiras, feitas por homens que se julgam capazes de estabelecerem limites até nas relações pais e filhos, (mais a maioria não tem honra nem caráter para educar sequer um cão)mesmo que muitos nunca os tenha tido e sem verem a incapacidade do estado de fazer cumprir o que diz as leis. E quando isto é feito apenas em parte, algum lado fica enfraquecido, nesse caso ambos perdem, amor e vidas.
    Mais como sou apenas um cidadão de cultura mediana que criou 05 filhos, (graças a Deus e alguns bons tabefes e castigos) que deram para homens e mulheres de bem.
    Os tabefes os dias sem sair de casa, sem botar o pé na rua, sem ver televisão, obrigados a limpar quintal, ajudar a mãe na casa, chegar nas horas marcadas não causou em nenhum deles dano psíquico, mais pode ser que ainda venha a causar alguma dificuldade em suas vidas, pois não estarão preparados para enfrentar as novas regras educacionais.
    Que será deles quando seus filhos, meus netos responderem “ora vá prá p…” não tenho saco para estudar agora?
    Acho que tenho a resposta, nenhum deles escuta o que dizem estes psicólogos de televisão, educadores e principalmente a baboseira, que tudo causa trauma, vão para o pau mesmo.
    É assim que se educa se mostra o caminho, mais se segura na mão para que não saia dele. E com força!

  3. biro de pirapama disse:

    Meu caro Douglas Menezes a sua identificação que o estado esta falido nesta questão é fato notório, basta ver os obituários de Pernambuco para constatar tal fato, mas agora querer criar uma república, uma bolsa para que vivessem em outras residências menos perigosas é como querer fazer a descriminação declarada de fato aos desprovido do estado laico na sua propositura do estado de direito

    Veja onde sua malévola idéia poderia chegar com tais descriminações

    1 Seriam uma classe declarada aos quatros ventos que sua condição social merece proteção constante.

    2 Nesta sua republica teria que tipo de classificação? Os mesmo teriam um atestado de pobreza para ser inserido em tais locais

    3 Como ficaria a cabeça desta humildes figuras brasileiras perante a sociedade que os rodeiam

    4 Lá dentro teria um espaço separado para brancos e negros? Pois hoje só se olha o negro com o pobre de favela e assim por diante

    Veja que só aqui já bastam minhas questões, que o coloco para este infeliz imortal que deve estar morto em suas palavras, que mais parece à separação da miséria ao mundo que vivemos, ou será que queres fazer o mesmo com a cadeira que ocupa nesta tal Academia de letras

    Agora Douglas. Quero te dizer o que seria justo é o senhor como professor, se colocaria a disposição de dar aulas a estes humildes mortais, que estão desprovidos das asas do estado de direito e que se encontram a beira de virar um Imortal que nem Alcides será que terias esta proeza?

    Acho que não, pois quem é imortal já mais desseria do seu trono para estar junto aos plebeus basta ver que apenas seu infeliz artigo tenta contaminar com uma idéia retrógada o Povo do Cabo de Santo Agostinho.

  4. viveane Araujo de Pontezinha Cabo disse:

    Meu Deus a que ponto chegamos Moura, um imortal da Academia Cabense de letras propor tal descriminação contra o Pobre em si é de uma infelicidade tremenda
    Pocha se o mesmo quer colocar todos em uma republica ele se contradiz, pois o mesmo fala que “os algozes do estudante foram pessoas jovens, um com menos de dezoito anos, inclusive. Fazem parte da geração perdida. Que às vezes mata sem qualquer motivo a pessoa que não queria matar”.
    Se você vai colocar todos ou vai fazer uma triagem?
    Fora disso tem mais: “Está aí o caso das torcidas organizadas, compostas, na sua maioria, por jovens que, a cada jogo, espalham o terror junto à população brasileira, entoando hinos de guerra e de morte aos adversários, além de assaltarem, causarem pavor às pessoas de um modo geral. Quem atira um vaso sanitário ou um extintor de incêndio a dezenas de metros de altura, como ocorreu no estádio do arruda recentemente, não tem noção nenhuma de cidadania ou não possui objetivo algum na vida.” Imagina isso nobre professor dentro de uma Republica como seria?
    Olha estou pasma com sua aberração infeliz e gostaria de saber, quem foi que escolher o Senhor para ser da academia cabense de letras foi o Povo? Infelizmente não, contudo este mesmo povo que vive e convive com vários Alcides da Vida já mais votaria em vossa pessoa.

  5. José luiz sobrinho disse:

    Acabei de ler os comentários sobre o artigo de DOGLAS MENEZES e gostaria de deixa mais uma pequena contribuição, até para eu ir treinando a minha escrita neste bicho chamado “computador” e ir me inserido no mundo da net. Se o jovem ALCIDES em vez de ser um Bom Estudante de medicina, fosse um bom jogador de futebol, será que as condições de moradia, alimentação, transporte e até de segurança seria diferente?
    Qual é o valor que tem em nossa sociedade um jovem com as características de Alcides?
    Será que jovens com mérito pessoal em destaque feito Alcides não mereciam um tratamento diferenciado já que ele era um jovem diferente ou não?
    O estado não devia da um estimulo?
    Não se tem bolsa disso, bolsa daquilo?
    Olha gente, eu só acho que se Alcides fosse um modelo em outras coisas mais valorizadas pela nossa sociedade tais como: bom ator, bom jogador, bom cantor teria no mínimo arrumado um forte patrocínio.
    Mais ele quis logo ser modelo na área da SAUDE. Uma política publica de incentivo por mérito a jovens como Alcides não impede a nossa luta por mudanças estruturais em nossa sociedade, eu vi assim o artigo de DOGLAS MENEZRS. Para quem repito tiro o chapéu.

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