BIBLIOTECA PÚBLICA ALBERTO DA CUNHA MELO

BIBLIOTECA PÚBLICA ALBERTO DA CUNHA MELO

Por: Ivan Marinho

No bairro de Santo Amaro, de frente para o Parque 13 de Maio – um balão de oxigênio tocado pelas mágicas mãos de Burle Marx e Abelardo da Hora – assenta-se, como numa confortável cadeira do papai, com pincenê arriado até a ponta do nariz, a se deliciar com uma infinidade de gêneros e estilos literários, a Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, por muitos chamada de Biblioteca Central.

Sei que não estranharão “os meus milhões de leitores”, como diria o saudoso poeta de Yacala, por chamarmos aquela biblioteca de Central ao invés de Castelo Branco, como foi batizada em 1975; é que jamais relacionariam aquela nave literestelar a um nome que mais se adequaria a um presídio, um quartel ou qualquer outro equipamento supérfluo criado pela ambição humana (ou desumana?).

Razão louca a dos padrinhos de alguns prédios públicos. Quando li no Batismo de Sangue, do Frei Betto, sobre as atrocidades praticadas dentro do Presídio Tiradentes durante a tenebrosa ditadura militar, que roubou-nos a liberdade de 1964 a 1984, iniciadas pelo “presidente” Castelo Branco, não consegui compreender o que levara alguém a por num cárcere o nome de um libertador. No sentido inverso, nunca consegui enxergar numa biblioteca o nome de um déspota que interrompeu um processo pertencente à sociedade com um golpe vertical sobre sua representação, atingindo-a consequentemente.

Na maioria das vezes, minhas visitas àquela biblioteca se deram por conta da presença de um olhar: o olhar poético de Alberto da Cunha Melo que, trabalhando no Setor de Obras Raras, dispunha-se de corpo e alma a seus visitantes, sem perder a oportunidade de falar de seu assunto favorito, a poesia.

Trabalhador de freqüência assídua, o poeta não se fazia de rogado em, vez por outra, sentar-se à sombra de suas amigas íntimas, as árvores, e fumar seu cachimbo ou os cigarrilhos que lhe presenteava, compondo magnitudes que só há pouco tempo começaram a ganhar o mundo. Daquele tempo de cumplicidade com dendezeiros, palmeiras imperiais, palmeiras leque, paus-brasil, flamboyants, acácias,  paus d’arco, jaqueiras, mangueiras, sapotizeiros, jambeiros, abacateiros, bambus, macaibeiras, barrigudas… nasceu o nome de um livro ainda inédito, que vem sendo tratado pela web-design  e musa do poeta, Claudia Cordeiro, o Ficus-Benjamim, fruto de um tempo de existir, virtualidade de um tempo de morrer.

No tomo Na Aldeia, do Meditação Sob os Lagedos, o Beto de Clau dispara sobre o conservadorismo ressentido:

PARQUE 13 DE MAIO

As pupilas velhas disparam
Seu rancor nos jovens casais,
Que se abraçam no parque em festa
Por entre pombos e pardais;

Pálidos de ressentimento,
Aqueles anciãos se sentam

Vencidos, nos bancos de pedra,
Equanto a noite, muda arqueira
Já lhes aponta a negra flecha,

Por não saberem, na partida
Que obscena é a morte, não a vida.

Em Outros Poemas Inéditos, no Cão de Olhos Amarelos, lamenta a efemeridade  da vida para quem não se antecipa em vivê-la:

AINDA NO PARQUE 13 DE MAIO

Ele atravessa, todo dia
Aquele parque, devagar:
Mesmo sem carga, vai pesado,
Como quem nunca quer chegar;
O portão dá para a avenida,
Os carros, as moças, a vida;

Mas, temendo a longa Via Ápia,
Vai invejar, ali no tanque,
A alegria de uma tilápia;

Não é só inveja, apenas viu
Tarde, que a vida se extiguiu.

E, transitando no sortilégio possível, desenha onde os pombos se encantam e a cidade, tardia, verte lágrimas:

ATRAVESSANDO O PARQUE

Estão trabalhando no parque
Onde o cheiro da morte é verde,
O da grama sendo cortada,
O dos talos sentindo sede;

Pombos continuam a morrer,
Sem uma pluma aparecer,

Como se houvesse um cemitério
Invisível, dentro dos ares,
Que os apagassem (falo sério);

Saindo do parque, a cidade
Está em lágrimas, é tarde.

E como numa inversão total do tempo encontra asas no seu último cárcere, imposto pela inveja e mediocidade do poder:

SETOR DE OBRAS RARAS

Aqui, todo tomo é sagrado,
E espanado pelos pincéis
(folha por folha, verso a verso),
Das sacerdotizas fiéis;

Aqui, as larvas, entre gênios,
Afogam-se no nitrogênio;

Aqui, procuram seu rincão
As cópias únicas dos sonhos
Que não tiveram reedição;

Aqui, o tempo nunca passa,
Nem termina sua devassa.

Quase uma década “enclausurado” no Setor de Obras Raras, mas “enclausurado” só seu corpo que, como asas, guardava vôos altíssimos, como os descobertos por Bruno Tolentino, Alfredo Bosi, José Nêumane Pinto, Hildeberto Barbosa, Mário Hélio, Deonísio da Silva e tantos outro doutores e críticos das letras no Brasil, mas também por nós, mortais do Interpoética e de outros tamboretes pelo mundo a fora.

Era militante a produção poética de Alberto da Cunha Melo que, mesmo com fragilizada saúde, empenhava-se em ler e escrever disciplinadamente, num exercício de procura de sua palavra, sua e do universo.

Ficamos aqui, anciosos pela publicação do Ficus-Benjamim (poemas de Alberto com fotografias de Assis Lima) onde o poeta e o fotógrafo tentam capturar (ou capturam?) a alma das expressivas árvores do Parque 13 de Maio, bem como acreditando que um dia, para além das vaidades mundanas de nossos governantes, uma biblioteca como a Pública de Pernambuco, possa ter um nome compatível com sua importância, como o do vencedor do melhor livro de poesia pela Academia Brasileira de Letras em 2007, o poeta Alberto da Cunha Melo.

ivanmarinhofilho@gmail.com

arte-pos-contemporanea.blogspot.com

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