Os desafios do desenvolvimento

Os desafios do desenvolvimento

Por:Adriana Guarda e Leonardo Spinelli

O projeto de lei que suprime 1.076,49 hectares de vegetação no Porto de Suape, em tramitação na Assembleia Legislativa e aprovado numa primeira comissão na semana passada, lançou luz sobre a necessidade de debater o desenvolvimento sustentável do complexo. Governo e ambientalistas afiaram os discursos e colocaram os argumentos na mesa. Principal polo de atração de investimentos do Brasil, Suape devolve a Pernambuco posição de destaque no cenário econômico nacional e coloca o Estado num novo ciclo de desenvolvimento. O novo cenário, com destaque para a área industrial e a estreia em setores como refino de petróleo, produção petroquímica e construção de navios, exige um redesenho do complexo portuário. Para se transformar no novo endereço da indústria naval brasileira, Suape terá que avançar para as áreas de mangue, porque os empreendimentos precisam se localizar à beira do mar. O foco da discussão, daqui para frente, será como compensar o dano ambiental e de que forma aumentar a fiscalização às empresas, que estão relaxando nas suas obrigações com o meio ambiente.

No novo Plano de Desenvolvimento e Zoneamento (PDZ) de Suape foi destinada uma área de 600 hectares para a implantação de um cluster naval. O Estaleiro Atlântico Sul (EAS) foi o primeiro a se instalar e outros cinco assinalam protocolos de intenção com o governo para fixar endereço no local. “Suape foi escolhida como a redenção econômica de Pernambuco e, ao mesmo tempo, como área de sacrifício ambiental. Sabíamos que isso ia acontecer. O EIA-Rima contratado há 10 anos já previa que essa área (destinada ao cluster naval) seria urbanizada e, já fazia alusão à implantação de quatro estaleiros”, destaca o diretor de Engenharia e Meio Ambiente de Suape, Ricardo Padilha.

A superintendente do Ibama em Pernambuco, Ana Paula Pontes, faz questão de frisar que o instituto não é contra o desenvolvimento econômico de Pernambuco, que floresce a partir de Suape. “Não só comemoramos, como somos parte deste processo. Temos a certeza de que o desenvolvimento só será sustentável se incluir a visão ambiental nos projetos. O papel dos orgãos ambientais é buscar tal entendimento, apontando alternativas e discutindo propostas que aliem o crescimento econômico e o bem estar, para as presentes e futuras gerações. Não será o orgão ambiental que inviabilizará ou impedirá a instalação de qualquer empresa, o importante é a viabilidade ambiental dos projetos. Sem isso, o próprio investidor não encontra os meios de se estabelecer”, analisa.

Mais radical, a representante da Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Aspan), Suzy Rocha, prefere, atacar a importância econômica de Suape. “Ipojuca é hoje o maior PIB do Estado mas tem o pior índice de desenvolvimento humano. Cadê a renda e a educação?”, questiona. Ela ressalta que a retirada do mangue vai causar desemprego, ignorando as milhares de oportunidades que um empreendimento como o Estaleiro Atlântico Sul gerou na própria região. “Os pescadores estão lá há várias gerações. Vão acabar com a renda e a cultura do mangue”, completa.

MUDANÇA PARA MELHOR

Mas, entre os próprios moradores da Ilha de Tatuoca, onde serão erguidos os estaleiros, o sentimento é diferente do discurso dos ambientalistas. A maioria defende a criação do cluster naval. Honório Alves de Almeida, de 20 anos, deixou a vida de pescador para trabalhar na área industrial do EAS. “Como pescador tinha uma renda de R$ 300 por mês. Hoje ganho mais que o dobro. A própria ilha mudou. Hoje temos estrada e energia elétrica. É verdade que o volume de peixes diminuiu, mas a nossa vida mudou para melhor”, testemunha.

A previsão é que os indicadores sociais de Ipojuca avancem nos próximos anos. Nos 31 anos de história do Complexo de Suape, a participação dos ipojucanos como mão de obra não chegava a 5%. Hoje, um acordo entre governo do Estado, empreendedores e prefeituras municipais determina que a mão de obra seja contratada nas sete cidades do entorno de Suape. Só o Atlântico Sul já conta com 3.400 funcionários. No pico das obras da Refinaria Abreu e Lima, a expectativa é que sejam contratadas 30 mil pessoas.

Publicado no Jornal do Commercio em 25.04.2010

Suape se compromete a preservar

Debate sobre mangue exige ponderações

Órgãos ambientais sem estrutura para fiscalizar

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